feice.com.br

Por que o
Orkut não é o Facebook

Não creio que seja nenhum exagero dizer que o Brasil é o país das redes sociais. Um dos primeiros casos de sucesso foi o Fotolog, em 2003, com suas centenas de milhares de fotos de adolescentes fazendo biquinho ou mostrando decotes ousados — e também algumas centenas de fotos de qualidade. O Brasil não demorou a "dominar" o site, originalmente gratuito, o que rapidamente forçou seus administradores a fazer um acordo com o hoje extinto portal Ubbi, mostrando propaganda aos usuários brasileiros, mesmo aos que tinham optado por fazer doações mensais. Naquele exato momento, em meados de 2004, o Fotolog começou a perder força no Brasil. Não apenas devido à desastrosa medida, mas também porque a concorrência do orkut estava se estabelecendo.

O crescimento do orkut veio de forma espantosa. Primeiro, porque não bastava querer para alguém se cadastrar: era necessário receber um convite. Segundo, o site ainda não tinha uma versão em português. E, terceiro, ninguém ainda tinha descoberto qual era a real utilidade do site. Eram comuns comentários sobre a suposta inutilidade do serviço, e havia até uma comunidade chama "Para que serve o orkut?". Na verdade, o que ocorria é que as pessoas preferiam não admitir que o principal motivo do sucesso era a curiosidade alheia. As páginas de scraps ("recados") eram vasculhadas por amigos, inimigos, namorados, namoradas, cônjuges etc. e não raro causavam discussões, controvérsias e brigas.

Essas páginas, aliás, eram o que mais se aproximava das atualizações que o Facebook tem hoje, pois eram o único conteúdo atualizado com alguma frequência. Fora isso, no máximo alguma comunidade de que o usuário passava a participar, embora isso não ficasse claro para os amigos, especialmente nos casos dos usuários que se juntava a dezenas, centenas e até milhares de comunidades. Os verbos "participar" e "juntar-se" nem servem para descrever com exatidão o que acontecia, pois a lista de comunidades servia muito mais como um "mural" do que o usuário gostava (ou odiava) do que qualquer outra coisa. Era como curtir um assunto, mas sem receber as novidades dele: acompanhar uma comunidade exigia visitá-la, e sempre foi difícil saber qual conteúdo já tinha sido lido ou não.

No início, o orkut permitia que cada usuário cadastrasse apenas doze fotos. Não era possível adicionar mais, a não ser que se apagasse alguma. E, de novo, ninguém ficava sabendo da sua nova foto; era necessário haver uma visita e, claro, um conhecimento prévio do que já tinha sido cadastrado antes, para saber se havia novidades.

Mesmo assim, sempre se ficava sabendo de casos de "vigília", em que namorados e namoradas monitoravam constantemente tudo que ocorria nos perfis de seus pares. Ou seja, a experiência no orkut era muito mais "ativa" do que no Facebook, onde você recebe na sua home as atualizações dos seus amigos, grupos e páginas curtidas.